não conte para a mamãe

Sou o Neto, diretor de criação da Bullet e o @Neto no twitter.

Não sou o Neto que comenta na Bandeirantes, não sou o pagodeiro que bate em mulher.

E esse é o Não Conte Pra Mamae, meu tumblr.

música velha no loop é bom né? :)

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Duplas.

Eu não sei o nome desse meu vizinho.
Se eu fosse arriscar, tentaria algo sóbrio, quatrocentão.
Alberto talvez.
Albinho para os mais chegados.
Não é vizinho de apartamento. É de prédio.
O condomínio aqui ao lado é sofisticado.
Desses que as mulheres tem carros com nome de caravela, como Santa Fé ou Vera Cruz.
O lugar é repleto de serviços.
Tem várias piscinas, quadra de squash, tenis, poliesportiva.
Talvez tenha até engraxate e uma alameda de serviços.
Devem servir cupcake nas reuniões de condomínio.
Toalhas geladas na sauna.
É uma espécie de Club Med entuchado no meio da cidade.
Num domingo de sol como esse, está à mil.
Crianças na ciclovia, esposas na hidro e Alberto, ah, domingo é o dia que Albinho joga tênis.
Duplas.
Como acompanho sua rotina, já aprendi que ele faz musculação na segunda.
E tem duas aulas de tênis por semana.
Uma às terças e outra às quintas, sempre às 20:00.
Mas domingo é o dia da partida de duplas.
São sempre os mesmos parceiros, não sei se são do condomínio.
Esse texto é sobre esse jogo.
Porque aposto que você conhece alguém como o Albinho.
Ele grita com ele mesmo, sabe como é?
Quando erra grita:
- NÃONÃONÃONÃO! - olhando para o chão, desconsolado.
Quando acerta uma boa bola, não se constrange e saúda ele mesmo:
- É ISSO GAROOOTO!
As vezes joga a raquete no chão, irado.
Seu parceiro é sempre o mesmo.
Fica constrangido.
Os seguranças ficam constrangidos com seus gritos.
Os outros vizinhos.
Todos ficam.
Eu fico.
Mas ele é competitivo demais para mudar.
Albinho é o tipo de cara que dá high five quando o parceiro acerta um ponto.
Falando assim, você pode ter a impressão de que o jogo é emocionante.
Não é.
É triste. Lerdo. Não está em sincronia com os gritos.
Albinho, por exemplo, não tira os pés do chão para sacar, apesar de fazer uma complexa coreografia antes do saque. Respira três vezes. Arqueia o corpo sobre a bola. Abaixa o boné. Bate três vezes no chão, com a raquete colocada bem para trás, como se fosse disparar um míssil.
Aí ergue a bola lenta sobre a cabeça e, fora de tempo, chapa a raquete paralela à linha de fundo de quadra. Sem potência. Sem efeito. Nada.
Puf.
- BOOOA GAROOOTO!.
Ace.
Porque os adversários são piores que ele.
Agora pouco ele mandou uma bola no fundo da quadra.
- fora - disse um de seus adversários.
- COMO FORA?! FORA COMO?! CE TÁ MUITO LÔCO??
O parceiro acudiu oferecendo um high five. Ele ignorou.
- FORA É O CARALHO! OLHA A MARCA AQUI - Ele gritava já do outro lado da quadra.
- pô…foi fora. - insistiam os adversários.
Mas Albinho estava fora de si.
Gritava descontrolado.
- ESSA BOLA FOI DENTRO PORRA. MUITO DENTRO. NÃO FOI?? - procurava o apoio de uma plateia imaginária.
Eu não aguentei.
- FOI FORA! - gritei da janela do meu apartamento.
Os quatro jogadores olharam para mim. Fiz um sim com a cabeça.
- Fora.
Pausa para descongelar.
Em silêncio, Albinho voltou para sua posição de saque, submisso.
- Zero, quinze - cantou seu parceiro.
Para vocês eu admito.
Não vi a jogada.
Passou uma Cayene na frente bem na hora.

Sessão de Terapia.

- Estou cansado de vir aqui.
Deitado no divã, olhando para o teto, a afirmação soou mais como um alívio do que com o enfado que ele desejava. Achou melhor corrigir:
- Porra…tô que não aguento mais vir aqui!
O psicólogo, treinado por anos e anos de silêncio, não esboçou reação.
O paciente, gordo demais, se contorceu no divã para conseguir contato visual com o médico.
- Não vai falar nada, não?
- O que você espera que eu fale?
- Fala alguma coisa, ué. Qualquer coisa. Tenta me convencer de continuar vindo aqui.
- Você acha que pode ser convencido?
- Não.
O paciente voltou a olhar o teto, emburrado.
Ele mesmo quebra o silêncio.
- A verdade é que essas sessões não estão funcionando…
- E porque você acha isso?
- …eu sou um sujeito prático, orientado a resultados, entende?
Silêncio.
- Não adianta você não responder. Você não me engana.
- Porque você acha que eu estaria enganando você?
- Para que eu não tome as pílulas, lá, do seu colega.
- Você acha que precisa de antidepressivos?
- Acho que sim. A esta altura eu estaria ótimo. Todos, eu disse TODOS, os meus amigos tomam antidepressivos e estão ótimos. Só eu não tomo nada.
- Entendo. E você acha importante ser como os outros?
O paciente volta a se contorcer para olhar o psicólogo de frente, como se a resposta precisasse da expressão facial:
- Não me subestima porra. Não me venha com essa papagaiada de “aceitação pelo grupo”. Eu só quero tomar uns remedinhos. Só isso. - volta a olhar para teto.
- E até quando você estaria bem?
- Até eu parar de tomar os remédios, ora.
- E você acha que essa é a melhor solução? Passar a vida se medicando?
- Escuta - agora o paciente está sentado no divã - Procura um cigarro no bolso, acende.
- Por favor…aqui é um ambiente não fumante.
O paciente ignora o apelo. Acende, traga e continua a falar.
- Você é um homem da ciência. Eu também sou. Não somos nada mais do que um punhado reações químicas. Sinapses e mais sinapses, células e estímulos elétricos. Não é?
O médico contorceu o rosto concordando em parte.
- Pois então, se somos apenas reações químicas, que diferença faz introduzir um composto químico externo? Hein? Um remédio que resolve de uma vez os meus problemas.
- Você acha que tem muitos problemas?
Agora o paciente está de pé, caminha, fuma e gesticula amplamente.
- Ô meu pai do céu…dá para parar com essa coisa primária de transformar em pergunta tudo que eu afirmo!
- Estou transformando?
O paciente para e olha o psicólogo, com raiva.
- Eu pago você para me dar paz. - aponta o cigarro acusatório - Não para criar esse stress quando venho aqui….eu…eu vou tomar meus remédios - tateia os bolsos à procura dos remédios - vou tomar bem aqui na sua frente, tá vendo? Rivotril, Wellbutrin, Cimbalta, Prozac, Lexapro, tá vendo? Hein? Que Freud que nada! Que mané Lacan! Eu quero é Pfizer, isso sim! Olhaqui - engole os comprimidos, sem ajuda de água. - tá vendo? Pronto. Caralho. Já estou me sentindo melhor.
- Fale mais sobre me pagar para ter paz. - impassível.
Caminha pela sala, mais calmo. Apaga o cigarro. Senta-se no divã.
- Não vou falar mais nada. Só digo isso: que beleza o poder da farmacologia moderna.
Deita-se novamente. O psicólogo olha o relógio de pulso e pergunta:
- Está melhor?
- Opa. Agora sim…é só esperar o efeito dos remédios. Estou ótimo.
- Então é isso, por hoje é só.
O paciente levanta-se e confirma a próxima sessão:
- Quarta-feira mesma hora?
O médico apenas confirma com a cabeça.
Os dois estão certos que o tratamento está dando resultado.
É só uma questão de tempo.

Uma história simples.

Todos os dias na mesma hora, ele entrava na livraria.
Ela trabalhava no caixa e acompanhava como ele lentamente passava pelos livros, um por um, cada dia num gênero.
Tentou fazer alguma associação, entender qual era a rotina.
Se comédias eram às segundas e dramas às quartas, mas não parecia haver lógica.
Cada dia, randomicamente, ele entrava pela livraria, desviava da ilha com os mais vendidos pelo lado direito, cruzava para o lado esquerdo diante da ilha de livros de auto-ajuda e mergulhava na infinita nuvem de volumes, dos quais se dedicava a ler título por título na categoria escolhida para o dia.
Ela, por cima dos óculos de leitura, disfarçava lendo algum dos livretos que ficam ao lado do caixa, aqueles de compra por impulso, bathroom reading, livros de listas, de efemérides.
Ele usava sempre, independente do tempo lá fora, uma camisa de veludo xadrez e um colete de lã por cima.
Ela já havia tentado relacionar a cor do colete com a escolha do gênero.
Vermelho para suspense, verde para aventura, mas nada.
Nem o dia da semana, nem o dia do mês, nem a cor do colete.
Cada dia um gênero, randomicamente.
Mas não era só isso.
Invariavelmente, depois de certa escolha, ele tirava algum livro da estante.
Caminhava até uma poltrona de couro específica, se sentava e lia por exatos 40 minuntos.
Quando a poltrona estava ocupada, ela já tinha notado, ele segurava o livro com as mãos cruzadas diante do corpo e aguardava pacientemente sua vez, como quem espera um ônibus. De camisa xadrez de veludo e colete de lã. No máximo batucando com os pés.
Ele nunca comprou nenhum livro.
Nunca dirigiu a ela uma única pergunta.
Nos primeiros meses, ela tentou forçar uma interação qualquer.
Espanava livros próximos dele, deixava cair alguma coisa.
Nada.
Tudo que ele fazia era sua rotina, matematicamente calculada.
Ela gostava de pensar que provia a ele, histórias.
Todo dia ele vem se alimentar.
Se nutri, graças à ela, de histórias que devem servir para algum fim.
Isso foi suficiente para ela.
Num dia qualquer, após seus 40 minutos habituais, ele se levantou e caminhou em sua direção.
Ela sentiu o coração bater mais forte.
Ele parou diante do caixa.

- Eu vou levar este aqui.

Ela segurou o livro como se fosse o primeiro de sua vida. Girou-o nas mãos, tentando entender o que aquele livro tinha de especial. Mas nada chamou a atenção. Era só mais um livro, entre tantos milhares. Nenhum autor conhecido, nenhum título peculiar, nenhuma capa instigante.
Nada.
Apenas um livro.
Ele ergueu os olhos e primeira vez os dois cruzaram o olhar.
Ela gaguejou:

- São vinte e cinco reais.
- Pois não - ele esticou o cartão.
- O senhor tem o Cartão Ulisses Livros?
- Não senhora.
- Com ele o senhor ganha descontos nas próximas compras. Quer fazer um?
- Não senhora, obrigado.

Ela digitou na maquininha da Cielo os vinte e cinco reais.

- Crédito ou débito?
- Crédito.
- Sua senha… - ela olhou para a rua para garantir a privacidade.

A máquina vomitou um papelzinho.

- O senhor quer a sua via?
- Por favor.

Ela colocou tudo na sacola da Ulisses Livros e entregou a ele.
Ele segurou por sobre a mão dela, por uns dois segundos além do necessário.
Foi o suficiente.
Ficaram juntos por mais de vinte anos.
Ele enchia a cabeça de histórias.
Ela aguardava paciente o dia que ele as contaria para ela.

Academia

Preciso voltar a me exercitar.
Sei disso, não precisa me lembrar, nem apresentar um power point com as estatísticas das doenças que acometem os sedentários como eu.
Isso só me desanimaria ainda mais.
No último exame médico que fiz, respondi a um tiroteio de perguntas com honestidade.
Nas últimas o médico já não conseguia mais evitar um movimento negativo com a cabeça.
Fuma? Sim. Sedentário? Sim. Se alimenta mal? Sim. Esportes? Nenhum.
O médico ergue a cabeça.
- Me ajuda a te ajudar, amigo…responde alguma pergunta direito, por favor.

Tirou meu pulso.
Perguntei, tentando fazer amizade:
- E aí doutor? Como está o pulso?
- Presente, para minha surpresa. - respondeu o cínico.

O fato é que ainda não consegui me recuperar da última vez que me matriculei numa academia.

Nada contra os equipamentos ou a equipe não.
Meu problema foi comigo mesmo.
Inveja.
Inveja dos meus colegas de exercício.
Inveja desse casal em especial.
Ele era parecido comigo. Careca, cinquentão. Até seu corpo lembrava o meu.
O corpo de quando eu tinha 23 anos.
Ela era fogosa. Já tinha passado sem ser notada pelos 40.
Não pude deixar de reparar que seus seios não balançavam quando corria.
Ficavam lá. Sólidos. Estáticos como se estivessem pendurados ao seu queixo por um fio imaginário.
Ele e a mulher frequentavam o mesmo horário que eu.
Eu sempre escolhia a esteira mais distante de qualquer outro ser humano e me arrastava de cócoras até lá, na esperança de passar despercebido.
Eles escolhiam o centro do palco, digo, academia.
Suas roupas reluziam sob os holofotes inexistentes.
Faziam high-five cada vez que completavam cada quilômetro.
Gritavam uhu juntos e riam sem motivo, um para o outro.
Tinham faixas no peito, relógio, joelheira e garrafinhas de metal que combinavam com a roupa.
Eu corria com minha camiseta furada da NASA, em homenagem ao primeiro vôo do Columbia.
E minha bermuda com forro de lycra para evitar assaduras na coxa.
Eu tinha inveja deles.
Eles me ignoravam.
Corríamos meia hora.
Um dia disseram:
- Amanhã é pra 5:10, amor!
Eu, aliviado, achei que aquele era o horário que viriam no dia seguinte.
Levei semanas para descobrir que era o tempo, em minutos, para completar um quilômetro.
Meu tempo por quilômetro era “muito”.
Não era menos do que dois dígitos, isso eu garanto.
Apelidei os dois de Ken e Barbie, mentalmente, para aliviar a inveja.

Mas o pior era no vestiário.
Ken se vestia mais rápido do que eu.
Passava por mim num terno perfeitamente cortado e gravatas de cores bissexuais.
Perfumado, deixava atrás de si, o rastro do sucesso.
Eu não me permitia levantar antes do rastro passar por inteiro.
Era um jogo particular meu.
Ficava ali sentado, olhando a barra puída do meu jeans, como um teco-teco que não pode decolar logo depois de um Boeing. A turbulência de cauda do Boeing poderia fazer o teco-teco entrar em parafuso.

Preciso voltar a me exercitar, eu sei.
Já tentei Personal Trainer também.

Pegue um que tire você da cama, me deram o conselho.

- Um que arranque você da cama. Só isso funcionou para mim - disse um amigo.

Abri os olhos e antes que conseguisse tirar as ramelas dos olhos ele estava lá, no meu quarto, com o sorriso escancarado de dentes brancos, o safado.

- Vamos, vamos, vamos levantar que o mundo está lindo e são quase sete horas! - gritava abrindo as janelas.

A última vez que abri os olhos antes das sete da manhã o mundo estava de cabeça para baixo, levei três tapas e comecei a chorar.
O sujeito era um poço de energia positiva. Um horror.
Dava aulas de uma luta qualquer que nem sei escrever o nome.
Na terceira aula ele introduziu umas luvas que eu deveria socar, ao invés do meu inimigo imaginário.
Não tenho ritmo para isso.
No terceiro soco, destronquei o pulso irremediavelmente para sempre.
Não preciso disso.
Nunca pretendo socar ninguém.
Em caso de conflito eu sou o que filma e põe no Youtube.

Preciso voltar a me exercitar, eu sei.
Amanhã.
Amanhã eu começo.

Fátima da Nespresso

Toca o telefone.

- Alô?
- Alô, senhor Mentor?
- Sim.
- Aqui é a Fátima da Nespresso o senhor pode falar?
- Sim, claro.
- Estou ligando para saber se está tudo bem com a sua máquina de café…
- Com a minha máquina de café?!
- É com a sua Nespresso. Nosso compromisso é com a sua satisfação.
- Ah…ela está bem…mas…não sei se devo dizer…
- Pode falar, senhor Mentor. Nós da Nespresso queremos ajudar o senhor a ter plena satisfação com sua máquina de café Nespresso.
- Então…é que ela anda muito deprimida.
- Como senhor?
- É assim Fátima: nós tínhamos três xícaras, sabe?
- As xícaras transparentes Nespresso?
- Isso. Tínhamos três. Éramos nós aqui no escritório. A máquina de café, que eu chamo de Jéssica, e as três xícaras.
- ….
- Outro dia, um cliente estava aqui comigo e com a Jéssica. Tudo ia bem até que ele deixou uma das xícaras cair e…ah meu deus…ela veio à óbito.

Silêncio na linha.

- Alô?
- Sim senhor Mentor, estou ouvindo.
- Você ficou emocionada, Fátima?
- Não senhor.., é que…
- Então…depois dessa tragédia a Jéssica não anda muito bem. Calada, fria, menos produtiva… você entende não?
- Sim….sim…olha senhor Mentor, o seu endereço ainda é Rua xxxxxxxxxxxxx?
- Sim.
- Então nós vamos enviar uma xícara nova para o senhor, está bem?
- …
- Senhor Mentor? O senhor está aí? Senhor Mentor?!
- Fátima…
- Sim?
- Você está sugerindo substituir o Albertinho?

Desligou.

1000 Fios

Recebo um email de uma marca famosa - dessas de coisas de casa…tipo lençol, toalha, saca? - informando que estão em promoção.
Eu sempre quis ter um lençol de mil fios.
Nem sei qual é a vantagem de ter mil fios.
Alias, quando vejo os meus lençóis, eles parecem ter muito mais que mil fios. Uns 20 mil eu arriscaria dado o tamanho da minha cama.
Mas acho chic mil fios.
Mil fios.
Fico pensando nos fios sendo tecidos num lugar distante, por muçulmanos que fazem isso há gerações. Afeganistão talvez.
As bombas explodindo e eles tecendo, apenas para que eu tenha uma boa noite de sono.
Decido ligar para a loja.
Chegou a hora de ter um lençol de mil fios.

- Alo?
- Xxxxxxxxx Iguatemi, boa tarde.
- Oi. Vocês ainda estão em promoção?
- Sim senhor.
- Vocês têm lençóis de mil fios?
- Temos sim senhor, mas não estão na Promoção.

Nessa hora eu deveria ter desligado e voltado para a Classe Média, de onde nunca deveria ter tentado emergir.
Mas você entende, não é? Já estava lá…pensei nos Afegãos e fui em frente.

- Ah…ok…Mas tudo bem…qual o preço do jogo de lençóis?
- King ou Queen senhor?
- Quem eu?
- Não. A cama, senhor.
- É casal. Couple. King and Queen. Não tem?
- Não senhor.
- Então me fala o preço do lençol King. - apostei no mais caro.
- É….hmmm….deixa eu ver….Cinco mil e quinhentos.

Pausa triste.

- Oi? Cinco mil e quinhentos o que? Fios?
- Não. Reais senhor. Cinco mil, quinhentos e oitenta e quatro reais.

Fiquei olhando para o mouse do computador na minha frente por cerca de seis segundos.

Nesse tempo minha mente voou pelo deserto Afegão. Seco, árido. Sem luxo nenhum. Pensei no porque dos tecelões afegãos viverem uma vida tão frugal, produzindo um produto tão caro.

Pensei em tudo que eu poderia fazer com cinco mil e quinhentos reais e acordado.

- Senhor?

Tentei. Mas não conseguia voltar a emitir sons.
Mentalmente, dividi 1000 por 5584 para saber o preço por fio do lençol.

- R$ 5,58
- Como senhor?
- Cada fio custa R$ 5,58.
- É…acho que sim.
- Barato R$ 5,58, né? Por fio, digo.
- O senhor quer que eu reserve?
- Fica caro quando a gente junta os mil. Aí fica caro. - tentava encontrar uma saída honrosa daquela ligação.
- Posso deixar aqui no seu nome, para não correr o risco de vendermos.
- Ah não. Não vamos correr esse risco, não é mesmo?

Dei meu nome para a moça.
Está lá, anotado.
Reservado.
Não há o mais remoto risco deles venderem.
Pelo menos para mim.

A Mulher de Vermelho

Ela entrou na frente.
O cabelo preto oriental e um vestido todo vermelho, lembrando um kimono.
Deve ter por volta de cinquenta anos, isso considerando que as orientais parecem levar mais tempo para envelhecer.
E o cabelo. Ah, o cabelo. Maltratado e cheio de pontas e ondas que estavam ali pelo calor e umidade infernais.
Tinha gestos irritados e o rosto exageradamente maqueado - outro sinal da idade, coisa que algumas mulheres não se dão conta, certas de que convencerão o mundo que nasceram com aquela massa grossa tapando os poros.
Faz muito calor.
Isso deve deixar todos mais irritados.
Entrou acompanhada de um casal de velhos, provavelmente seus pais, que ela tentou acomodar num canto do Café menos confortável do que eles mereciam.
Os velhos se olharam entre si enquanto ela falava rapidamente as opções do cardápio.
Não entendo chinês, nem japonês, nem nenhuma língua asiática. Não me orgulho disso. Gostaria de saber falar mandarim. Ou japonês.
Saber uma língua faz você aproveitar muito mais uma viagem.
A viagem é tão rica quando se pode ler.
Não sei dizer que língua a mulher falava. Mas falava rápido.
Deu-se por satisfeita. Fez um gesto definitivo para cada um dos velhos, mostrando uma foto no cardápio e caminhou segura de sua decisão até o caixa.
Os dois velhos trocaram entre si o olhar universal de deixar-para-lá-ela-é-assim-mesmo.
A menina do caixa deveria ser da India. Tinha aquele tom de pele ligeiramente cinza e usava uma dessas bijouterias entre os olhos, você sabe qual é.
Para meu alívio, também não entendeu nada do que a mulher falou.
Mas as fotos do cardápio fizeram a tradução.

Fade out.

Procuro outra história no Café. Mas não há mais nada acontecendo. Apenas a mulher esperando seu pedido batendo o pé sem ritmo no chão.
Me irrita gente que bate o pé sem nenhuma métrica.
Evito olhar.
Não consigo.
Tap…tatap…tap…tatatap…tatap….tap

Fade in.

Estou terminando meu café.
Os velhos estão comendo o que veio.
Tudo parece estar sob controle.
Então a mulher solta uma exclamação. Nem isso. Um miado.
Levanta-se e vai até o caixa.
A indiana não entende o que a mulher fala apressada, apontando a nota fiscal e algumas moedas.
Eu não falo chinês, japonês ou indiano.
Mas entendi que a mulher achava que o troco estava errado.
Note, ela não fazia escândalo nenhum, como talvez um brasileiro ou italiano fizesse.
Não.
Ela apenas falava sem parar.
A menina do caixa fez o sinal universal de espere-aqui-que-eu-volto-já.
Foi até a cozinha e voltou arrastando um adolescente alto.
Enquanto limpava as mãos no avental, o jovem traduzia para a indiana, numa terceira língua que também não sei o que é, aquilo que provavelmente eu havia entendido pelos gestos.
Impasse internacional.
Em três línguas.
Pensei em me meter, mas lembrei que nós, brasileiros, somos anões diplomáticos.
Então relaxei para observar como seria o desfecho.
No Brasil e em boa parte do mundo seria um bate-boca interminável.
Fiquei imaginando como eu resolveria o problema se fosse o gerente, enquanto os três discutiam entre si, nas duas línguas incompatíveis.
Era a palavra de uma em chinês contra a da outra em indiano pelo que dava para perceber.
Nenhuma estava disposta a arredar o pé, apesar de não haver hostilidade entre elas.
Apenas o adolescente tradutor.
A fila começou a se alongar.
Outros clientes do café começam a dar atenção ao episódio.
Então, sem que ninguém tivesse chamado, a porta da cozinha se abre e sai de lá uma senhora baixinha, com traços orientais. Talvez chinesa.
Ela não fala nada com ninguém. Apenas faz gestos.
É a intervenção da ONU que todos esperavam.
Manda que o jovem da cozinha volte ao seu posto.
Abre um segundo caixa e sinaliza para a jovem que estava preparando os pedidos para que assuma aquele posto.
Despacha a indiana para a função de preparar os pratos.
O Café está de novo em operação.
Falta solucionar a crise.
A senhora pede que a mulher saia da fila e fique ao lado do caixa onde aconteceu o problema.
Fecha o caixa, totaliza e com uma calculadora de mesa, faz as contas de quanto dinheiro entrou desde que o caixa foi aberto.
Então, tira o dinheiro da gaveta e conta nota por nota. Algumas moedas.
Reconta.
Ao concluir, não reage, não fala nada, nenhum gesto com a cabeça, nenhum virar de olhos, nenhuma reprimenda à indiana. Nada.
Apenas segura uma nota de vinte com as duas mãos e entrega para a mulher, que recebe também com as duas mãos.
Ambas se cumprimentam com um suave sinal com cabeça.
Vida que segue.

Se o Brasil fosse um avião.

Se o Brasil fosse um avião.
Se o Brasil fosse um avião, seria um Antonov 225, o mais pesado avião do mundo.
Se o Brasil fosse um avião, teria um motor de Cherokee, um monomotor, incapaz de criar a velocidade necessária para gerar a quase infinita sustentação necessária para voar.
Se o Brasil fosse um avião, teria na asa esquerda Guilherme Boulos, o imbecil que lidera o MST paulista e todos os esquerdas caviar que infestam minha timeline.
Se o Brasil fosse um avião, teria na sua asa direita o idiota do Rodrigo Constantino, Reynaldo Azevedo e todos os coxinhas cinco estrelas que veneram nosso passado sombrio.
Se o Brasil fosse um avião, como Niemeyer sonhou, seria um avião anão, na diplomacia que é contra Israel mas não é contra a Venezuela.
Anão no IDH, que cresceu um mísero ponto mas continua medíocre, na popa do gráfico.
Anão na Saúde, na Educação, no Saneamento.
Se o Brasil fosse um avião, teria a cabine da primeira classe pequena, apenas para meia dúzia de passageiros, forrada a ouro e com o melhor serviço de bordo que o dinheiro do imposto mais alto do mundo pode comprar.
Se o Brasil fosse um avião, teria uma classe econômica gigantesca, de cadeiras desconfortáveis e sem serviço de bordo.
Se o Brasil fosse um avião, o overbooking seria único na história da aviação. E pior. Muitos dos passageiros da lista de espera foram enganados e acham que vão poder embarcar, sentados em cadeiras de madeira ao longo da pista, enquanto a tripulação insiste que já embarcaram.
Pouco importa no final, embarcando ou não, ficarão no mesmo lugar, pois o avião nunca vai conseguir decolar.
Por que?
Porque se o Brasil fosse um avião teria os pneus furados, incapaz de taxiar e estaríamos aguardando ansiosamente a troca dos pilotos que ocorre em outubro.
Estaríamos olhando o mapa do mundo, traçando rotas imaginárias, colocando alfinetes para onde queremos ir, mesmo sabendo que quando os novos pilotos assumirem, no início do ano que vem, continuaremos no solo, sentados em nossas poltronas, com cintos afivelados, celulares desligados, eternamente angustiados.

Quem pode falar mal da Luzinete?

Carlyle como bom inglês, ama o futebol.

Esse ano, veio assistir a Copa no Brasil.

Nem a desclassificação da Inglaterra reduziu seu amor.

Sujeito viajado, nunca tinha estado na América do Sul.

Pensando bem, nunca esteve abaixo do Equador, veja você.

Se hospedou no Hyatt da Marginal.

Todo dia de manhã, lia um fac-símile da Folha, em inglês.

Carlyle gosta de conhecer o cotidiano dos países que visita.

Nessa manhã, uma manchete chamou sua atenção na página policial (que lia sempre, preocupado com a violência brasileira, alardeada nos jornais britânicos).

Era a história de Lúcio.

Lúcio entrou no boteco de cabeça baixa e foi direto para a mesa de snooker ao fundo.

No caminho gritou, sem olhar:

- Junior, manda um bauru e uma cerveja, faz favor.

Sentou-se ao lado de Airton, numa cadeira vermelha de metal.

Começou a falar sincopado, olhando para a mesa de snooker, como se estivesse seguindo um longo diálogo interrompido na véspera, ou lendo um script num monitor, enquanto alisava a barba no sentido oposto dos pelos.

- Um dia ainda dou na cara dessa mulher…juro por deus…puta que pariu rapaz…o que um homem tem que aguentar não é fácil nessa vida. Acordo às cinco da manhã, tomo uma bosta dum pingado de café enquanto ela tá lá dormindo feita uma filha duma puta. Pego ônibus lotado. Três. Chego na porra da firma e trabalho feito escravo. Almoço uma comidinha xexelenta…

No snooker, Wellington mata a marrom, prepara para a seis, mata a cinco e encaçapa a branca. Estica o taco no placar de madeira e desliza as contas de plástico branco:

- Somei oito. - anuncia.
- Sete na caçapa do fundo. - canta Merval.
- Próxima sou eu e o Lúcio. - anuncia Airton antes da tacada.

Lúcio continuou a ladainha:

-…passo a tarde fazendo conta pro porra do patrão ganhar dinheiro. Aí toca 3 condução de novo de volta pra casa. E compra leite. E compra pão e quando chego em casa ainda tem que ouvir merda? Isso é viver? Vamos pra praia no final de semana? - fala em falsete - Sabe o que a vizinha falou? Sabia que o noivo da fulana deu um colar pra ela?…tem que aguentar isso? - Lúcio pergunta sem olhar para o lado.

- Arran. - Airton respondeu automático atento ao jogo.

A bola sete caiu sem ruído. Volta para a mesa. Merval prepara a seis para a caçapa oposta, no fundo à esquerda.

- …e eu abro a geladeira e o que que tem para comer? Nada. Não passou nem no hortifruti. Nem fez um arroz, um picadinho. Nada. Porra. Será que isso é viver? Trabalhar para escutar merda enquanto ela passa o dia no salão fazendo a unha das comadre e não faz nem uma porcaria dum picadinho?

Wellington e Merval terminam o jogo ao mesmo tempo que o bauru chega com a cerveja.

Airton se levanta e escolhe seu taco com cuidado. Rola-o sobre a mesa. Todos os tacos são imprestáveis. Tortos e sem ponta. Mas ele escolhe com atenção cirúrgica. Decide por um. Passa o giz na ponta de madeira gasta. Esfrega talco entre o polegar e o indicador esquerdos. Lúcio ainda não se levantou.

Wellington senta no lugar onde estava Airton e dá um gole na cerveja de Lúcio, sem pedir. Lúcio continua falando, sem se importar com o novo interlocutor.

- Aí, no tempo que eu levo para escovar os dentes, a filha da puta da Luzinete já pega no sono roncando alto. Vou te contar. E lá vou eu tudo de novo no dia seguinte. Porra. É de fuder essa vida. - dá a primeira mordida no bauru depois de uma breve pausa.

Wellington move a cabeça afirmativamente, como se estivesse concordando com tudo. É um rapaz de pouco mais de vinte anos. Assistente administrativo num escritório de contabilidade. A última frase, o fato de Lúcio se queixar de não fazer sexo com sua mulher, foi o que mais chamou sua atenção no desabafo do amigo. Pensou em como a vida de Lúcio é mesmo triste. Casado com um mulherão, mas incapaz de ser feliz.

Então acontece. Quase sem pensar, Wellington deixa escapar.

- É … a Luzinete nunca me enganou. Safada.

Lúcio volta-se lentamente na direção do amigo.

Wellington não teve chance de ver de onde veio o golpe. Uma garrafada de cerveja seca, na cara. Não era para tanto, nem seria fatal se a garrafa não tivesse partido no momento do impacto. Morreu na ambulância do SAMU.

Carlyle fechou o jornal e olhou o trânsito na Marginal.

Justo nessa hora, trouxeram a conta.

Enquanto Carlyle entregava seu cartão de crédito Barclay’s, o garçom perguntou simpático:

- Are you enjoying your stay in Brazil, sir?

Carlyle, então, fez um balanço mental da viagem até ali.
Lembrou do aeroporto inundado em Brasília.
Lembrou das malas que extraviaram e foram parar em Cuiabá.
Pensou nas duas horas que passou esperando o taxi em Cumbica.
Nas favelas que viu pela janela do trem a caminho do Itaquerão.
Na poluição do Pinheiros e do Tietê, cheios de detritos flutuando.

Mas quando ia responder, lembrou da sinceridade de Wellington.

- I’m loving it, my friend - respondeu sem pestanejar - Oh, yes indeed.

Melhor assim.

120 minutos no Inferno

No dia em que a Argentina enfrentou a Suíça, Kennedy resolveu assistir ao jogo com seus amigos, no Inferno.
Entrou no elevador e sempre educado, cumprimentou o ascensorista.
- Bom dia, Ayrton.
- Bom dia, John. Subsolo?
- Isso.
- Hoje vai assistir ao jogo lá embaixo, é?
- Vou. Os meninos me convidaram…mais animado, né? E você?
- Acho que vou ver com o Fangio. Mas ele fica insuportável quando a Argentina ganha.

Kennedy não gosta do Inferno.
Os corpos nus espalhados pelo chão, o cheiro de enxofre, a lama e Wagner tocando a todo volume não são adequados para um homem de sua estirpe.
Não fosse por Marylin, não desceria nunca.

Mas assistir aos jogos decisivos no Paraíso, é um porre. Tudo verde e amarelo, aquela decoração de São João, a aquarela do Brasil tocando no loop.
E ainda tem Deus desfilando com a Canarinho, pega até mal.

Por isso, para assistir campeonatos não tem lugar melhor na Eternidade do que o Inferno, onde derrotas e vitórias são comemoradas com a mesma intensidade.
E quando joga a Argentina, então, o Capeta bota fogo no lugar.
Distribui ninfas para todos, libera o consumo de drogas, até álcool pode ser consumido, desde que longe do fogo.
Então, mesmo não entendendo muito de soccer, JFK decidiu que a perspectiva de ver o Tinhoso sofrer com a eventual desclassificação argentina valia o transtorno.

O teatro onde assistiriam o jogo era magistral.
Colunas com centenas de metros, a luz vermelha, a fumaça, Stravinsky regendo o chill in. Esse Danado sabe criar expectativa, pensou.
Na plateia apenas chefes de estado, exceto Che Guevara, que por ser argentino foi liberado vestindo a camisa do Messi.
Kennedy tirou o convite do bolso do sobretudo e o entregou para a hostess:

- Olá John…
- Olá Maria…espero que o lugar seja bom.
- Para você sempre o melhor, John. - Maria Callas conhecia qualquer teatro como a palma de sua mão.

Os dois caminharam lentamente para o lugar marcado, tantos eram os conhecidos a serem cumprimentados. Churchill ofereceu um charuto, Mao fez uma continência desajeitada, Thatcher cochichou algo em seu ouvido. Roosevelt conversava com Stalin.
Kennedy procurava se enturmar entre Getúlio Vargas, Khomeini e Perón, quando um nanico subiu na cadeira e gritou:

- John! John! Aqui do meu lado! Guardei para você!!
- Ah não…Adolph é um chato, me livra dele Maria - implorou tarde demais.
- É o preço da fama, John - Callas riu e entregou o convidado para o austríaco.

Por ter se refugiado na Argentina depois da guerra, o führer se considerava Argentino por gratidão.

- Sentate acááá Juanito. Hoy vamos a destruir estos quesitos de miércoles!

Vai ser um longo jogo, pensou.

De repente as luzes se apagaram.
Dos falantes, os primeiros acordes de “Eye of the Tiger”.
Um holofote no fundo do teatro anunciou a chegada do dono da festa.
Antes, entra sua corte:
Em túnicas vermelhas, Ray Conniff e seu coral, os astrólogos, os autores de livros de auto-ajuda, os políticos corruptos e os militantes radicais.
Sobe a música.
Lúcifer surge, único.
A seus pés, Linda Lovelace, Maria Schneider e Sandra Brea, nuas como num quadro de Frank Frazetta.
Pausa dramática.
Dois telões ao lado do palco revelam sua face num close, cabelos ao vento.
É ele.
Maradona.
O Diabo ergue a mão direita, num soco no ar.
A plateia vai ao delírio.

- Mano de Dios! Mano de Dios! Mano de Dios! - gritam em êxtase.

O Demônio caminha deixando um rastro de fogo até seu lugar.
Abrem as cortinas de veludo e ouro.
Num telão de leds gigantesco, o jogo vai começar.

Fade out.

120 minutos depois.

Fade in.

A porta do elevador abriu, Kennedy entrou, bêbado, abraçado a Marylin e Jackie.

- Desculpe John…mas elas não podem subir. Você conhece as regras.

JFK beijou as duas e se despediu.
As portas se fecharam.
O presidente americano mal consegue se manter em pé.
Ayrton e Kennedy sobem em silêncio.
Os dois já sabem o que os espera.
Hoje Mercedes Sosa não deixa ninguém dormir em paz.

O Sorriso do Ronaldo

Quando eu era criança, meu pai tinha um amigo chamado Alfredo.
Alfredo tinha um filho, chamado Ronaldo.
Nunca gostei deles.
Nem do Alfredo, nem do Ronaldo, nem da irmã e da mãe do Ronaldo, de quem não me lembro os nomes.
Acho que eles também não gostavam de mim.
Não saberia dizer o porquê da minha antipatia pela a família toda.
Moravam longe, numa casa cuja obra nunca estava terminada.
No quintal da casa em obras, tinha sempre cimento e tijolos.
A casa era lá perto da Guarapiranga.
O Alfredo era amigo de infância do meu pai.
Então meu pai o ajudava a construir aquela casa eterna, por infinitos finais de semana.
Ajudava empilhando os tijolos, cimentando as paredes, passando massa, pintando.
E aquela obra seguia, glacialmente lenta.
Ano após ano.
Enquanto isso, Ronaldo e eu, muito a contragosto dada a antipatia mútua, brincávamos de bola de gude ou um pouco mais velhos, ouvíamos discos do Jackson Five para passar o tempo.
Eu não gostava do sorriso do Ronaldo acima de todas as coisas.
O desenho dos lábios, a forma dos dentes, sei lá.
Me dava nos nervos aquele sorriso.
Um dia, lá pelos meus 14 anos, em casa, sorri para o espelho depois de escovar os dentes.
E como numa versão suburbana do Retrato de Dorian Gray, eu vi o sorriso do Ronaldo em mim.
Estava lá, impávido no meu rosto.
Que peças a cabeça da gente nos prega, não?
Desse dia em diante, nunca mais consegui sorrir assim, de boca aberta e dentes oferecidos.
O sorriso do Ronaldo está, desde os meus 14 anos, à espreita de meus melhores humores.
Claro que não racionalizo essa história toda quando sorrio.
É muito pior que isso.
O sorriso do Ronaldo, ou melhor, o medo do sorriso do Ronaldo já está empoleirado no meu inconsciente.
Só as vezes, numa foto ou num espelho ele volta para me assombrar.
Hoje alguém tirou uma foto minha.
Me mandou por email, como gentileza.
E estava lá.
O maldito sorrisão de Ronaldo.
E pensar que Alfredo já morreu.
Ronaldo, se não me engano, também já morreu.
Mas a minha dificuldade em sorrir continua viva.
Por que estou falando isso tudo?
Sei lá.
Talvez para ver se exorcizo essa maldição.
Talvez para ver se você tem alguma história parecida.
Uma idiossincrasia. Um trauma. Uma tristezinha qualquer, causada exclusivamente por seus próprios preconceitos.
No fundo acho que todos temos, não?
Pode contar que eu não vou rir.

Já ouviu Xscape, o álbum novo do Michael Jackson?

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Mamãe e Papai

Em sua coluna de hoje na Folha de São Paulo, Nizan afirma que “não faz sentido mamãe e papai discutirem a relação, brigarem, diante dos convidados”, durante a festa de aniversário.

A metáfora refere-se à enorme probabilidade de nossa Copa ser marcada (e lembrada) por intensas manifestações.

Poderia defender um ponto de vista contrário me valendo da mesma metáfora: se o filho está doente, mamãe e papai – que não são ricos – deveriam se preocupar em curá-lo, investir em remédios, ao invés de gastar uma fortuna no buffet infantil.

Mas não quero ser hipócrita. A Copa deveria ser motivo de orgulho para nós.

Só que não foi.

Na verdade, esta Copa está se transformando no maior escândalo financeiro que este país (assim mesmo, em caixa, e cabeça, baixa) passou em sua história.

Ao contrário do que afirma Nizan: não é a Copa de um povo, é uma Copa da mesma minoria ganha-ganha que controla este país.

Essa Copa tirou do Brasil fortunas que deveriam ter sido investidas em infraestrutura básica.

Em 2007, quando a Copa foi anunciada, os gastos estimados seriam de 1.1 bilhão de dólares. Quanto gastamos? Até agora mais de 12 bilhões de dólares. Dá para imaginar quanto é isso? Te dou um dado: 70 países têm um PIB menor do que o que gastamos na Copa. Acho que isso ajuda a entender o colosso de dinheiro que se gastou para esse evento.

O ponto não é ser contra a Copa ou contra o turismo.

O ponto é não ser conivente com mais esta roubalheira.

Num país onde 49% dos lares não têm saneamento básico.
Num país onde 3,6 milhões de crianças e adolescentes estão fora da escola.
Num país que investe menos em saúde que Colômbia, Venezuela, Argentina, Chile e México.

Tomara que as manifestações se espalhem pelo país, mostrando para o mundo que somos um povo sério sim. E que somos comprometidos com a luta por uma vida melhor, mas que, porque somos jovens, ainda não aprendemos a escolher nossos líderes.

E somos roubados, sistematicamente.

Tomara que as manifestações durante a Copa mostrem para o mundo que a gente precisa de ajuda. Precisa de investimentos externos. Precisamos ser vistos como o que somos. Um país cuja qualidade de vida de 80% da população é equivalente à de países da África Subsaariana.

Quebra-quebra não resolve. Nem estou fazendo apologia à violência.

Mas manifestações na Copa são fundamentais para que se utilize o momento em que o Brasil está sob os holofotes do planeta para chamar a atenção para nossos problemas principais. No futuro, quero poder escrever País (em caixa e de cabeça alta), mesmo que para isso tenha que envergonhar mamãe e papai durante a festa.

Elios

Meu avô Elios, assim com S no fim, era Palmeirense roxo. Filho de italianos.
Todo domingo, sentava na mesa da sala de jantar e escutava os jogos baixinho, no rádio com capinha de couro marron Hitachi, sintonizado na rádio Panamericana.
Enquanto isso, minha avó Filomena, a matriarca da família, assistia ao Silvio Santos.
Ele não a incomodava por nada. Apenas erguia os braços em silêncio. E eu sabia que tinha saído um gol do Palestra.
Tinha um monte de piadas prontas.
Zero a zero, para ele, era oxo. Ou quando eu dizia que um jogo estava zero a zero, invariavelmente dizia; “Já?!”
Se o adversário era fraco e era goleado, afirmava sério:
- Também…coitados…jogam descalços!
Aos sábados pela manhã, me levava ao Argêncio, na praça da Sé, para comprar frios. Comprava azeitona preta, verde, mussarela e aquele treco xadrezinho que ninguém gostava.
Nas noites de sábado, minha avó fazia pizza para a família toda.
Fazia a massa, fazia tudo.
Sempre tinha quebra-pau na mesa.
Família italiana, já viu.
Depois do jantar, meu avô que fumava escondido, ia comigo até o portão da casa da rua da Consolação.
Se fosse noite de lua cheia, ele me pegava no colo e declamava:
- Luna, luna, me trae um piato de macarone.
Não sei se é assim que se escreve.
Nem nunca entendi esse verso sem rima.
Mas era assim que me lembro dele falando.
Por causa dele, sou corintiano.
Explico:
A preocupação dele é que o neto gostasse de futebol. Não importava o time.
Nas quartas à noite, algumas vezes me levou ao Pacaembu para ver o Corinthians jogar.
Se fosse Corinthians e Palmeiras, sentávamos na arquibancada do lado do Corinthians. Só depois de velho entendi o tamanho desse gesto de amor.
Meu avô trabalhou até morrer.
Foi banqueiro de jogo do bicho, quando o jogo era permitido.
Depois que proibiram, passou a trabalhar em Lotéricas.
Um dia ele foi almoçar na casa da minha mãe, filha dele.
Dei carona de volta para a Lotérica.
No caminho, passou mal.
Pediu para que eu o levasse na Santa Casa.
Naquele tempo, não existia celular.
Ele deu entrada e foi direto para a UTI.
Só pude ve-lo uma única vez depois disso.
Estava todo entubado.
Disse que ele ficaria bem.
Ele sorriu, mas nunca mais o vi.
Num sábado, 1970 ou 1971, me levou para assistir Corinthians x Santos.
Sentamos no tobogã.
Enquanto os jogadores se aqueciam, ele me disse:
- Netucho - era assim que me chamava - tá vendo aquele sujeito com a camisa 10 do Santos?
- Tô.
- Então, durante o jogo, olha só para ele. Não olha para ninguém mais.
- Por que?
- Porque quando você crescer, vai poder dizer que viu o Pelé jogar.
Muitos anos depois, na casa do Zé Victor Oliva, tive a oportunidade de contar essa historinha para o próprio Pelé.
Não que ele se importasse, cansado que está de todo mundo ter alguma história com ele.
Mas eu contei, vô. O negão sabe do nosso segredo.

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