não conte para a mamãe

Sou o Neto, diretor de criação da Bullet e o @Neto no twitter.

Não sou o Neto que comenta na Bandeirantes, não sou o pagodeiro que bate em mulher.

E esse é o Não Conte Pra Mamae, meu tumblr.

Os Dois Lulas

Existem dois Lulas.
Três, se voltarmos até a época da ditadura, mas fiquemos apenas com os dois mais recentes.
Nossos Dr. Jekill e Mr. Hyde.
Dr. Jekill era o Lula deputado.
Aquele que nos revelou que eram trezentos picaretas com anel de doutor.
Aquele que desejava um país mais justo.
Que criticava a oligarquia.
Criticava a burguesia.
Criticava o Governo e prometia mundos e fundos.
Esse Lula ganhou a eleição para Presidente.
Encheu muita gente de esperança (alguns de medo, mas rapidamente mostrou que não havia chegado ao poder para fazer qualquer revolução, só acordos - foi o primeiro sinal de Mr. Hyde).
Dr. Jekill ganhou a eleição, mas infelizmente, quem assumiu foi Mr. Hyde.
O Lula dos conchavos.
O Lulinha paz e amor.
O Lula que se uniu a Sarney e companhia ilimitada.
Alguns dirão que o fez “para poder governar”.
Pode ser.
Nesse país, infelizmente não deve ser possível governar sem conchavos escusos, já que a esmagadora maioria dos nossos deputados não está lá para fazer Leis, mas para fazer negociatas.
FHC mandou que rasgássemos tudo que ele escreveu, de tão difícil que deve ser Governar.
Em troca, acabou com a inflação. Essa que no Governo atual bateu, ontem, 6,15% nos últimos 12 meses.
Lula não mandou que rasgássemos, porque não escreveu nada.
Lula era verborrágico fora do Governo.
Uma vez Presidente, engoliu seus discursos que clamavam por justiça e passou a vomitar o discurso tacanho dos acomodados.
Enterrou a si mesmo na farsa dos picaretas.
Afogou-se nas mentiras que afloravam fartamente na sala ao lado da sua.
Parou de ter opiniões.
Negou evidências.
Decidiu que não decidiria.
Passou a não falar mais coisa com coisa.
Por anos a fio.
Para eleger Haddad, aceitou a condição quase anedótica de Paulo Maluf:
Teria que ir a sua casa e apertar sua mão, para os jornalistas.
Topa tudo por dinheiro.
Patético, Mr. Hyde foi.
Elegeu, para sucede-lo, essa energúmena incapaz de montar uma frase que faça sentido sequer, que dirá dirigir um país.
Vendeu e quase todo mundo comprou, a falácia da Classe C Emergente.
Houve, é verdade, uma melhora real do padrão de vida dos mais pobres.
Mas a razão está muito mais ligada à onda de crescimento dos brics durante a crise mundial.
Onda que graças à completa ineficácia da PasaDilma, mal conseguimos surfar.
Mas Lula, PasaDilma e esse monte de incomPTentes chupa meias do Governo continuam vendendo que foi o Bolsa Quem Quer Dinheiro que mudou o país.
Para a Classe C que não emergiu, falta tudo. Educação, saúde, segurança.
Estão em estado de emergência.
Classe C Emergência.
Recentemente, nesse mundo surreal que Lula criou para nunca mais parar de nos surpreender, apoiaram o pateta do Maduro.
Um estereótipo de generaleco ditador latino.
Tentaram nos convencer que tudo que víamos na Venezuela era mentira.
Anteontem, quando já é insustentável manter esse discurso, Lula pediu que Maduro “dialogue com a oposição”.
É a primeira atitude que ecoa o antigo Dr. Jekill em 12 anos.
Sabem o que aconteceu?
Maduro mandou Lula ficar quieto.
Coisa que deveríamos ter feito há muitos anos.

Bicho Esquisito.

A gente é um bicho muito esquisito mesmo.
Quando vejo esses programas que falam de peregrinações, então, fico ainda mais surpreso.
A gente acredita naquilo que disserem que devemos acreditar, se isso der alguma razão para nossas vidas.
A gente acredita em horóscopo.
Acredita que a posição dos planetas no momento que nascemos pode definir a nossa personalidade.
A gente passa por cima do fato destes conceitos terem sido criados numa época em que se acreditava que as órbitas dos planetas eram circulares e não elípticas.
Ou seja, quando a gente nasce o planeta não está onde a astrologia acha que está. Mas tudo bem. A astrologia logo correu a se justificar alegando que seus planetas não são os planetas propriamente ditos. Mas arquétipos mitológicos desses planetas.
Então tá, então. Está explicado. Já podemos novamente acreditar.
E a gente acredita em deuses, em fantasmas, em operações espirituais, em Cristo, em Buda, em Allah.
A gente mata e morre por Cristo, Allah e todos os outros deuses e profetas.
A gente acredita em outras dimensões sem que exista a mais remota prova científica.
Acredita em previsões, livros psicografados, religiões, simpatias, superstições.
A gente quer acreditar que exista alguma ordem no nosso caos.
Alguma razão para existirmos.
A gente acredita nos nossos amiguinhos imaginários para tornar a vida mais palatável.
A gente se nega a acreditar que somos só uma obra do acaso e que nossa existência no planeta é simplesmente uma coincidência fantástica de elementos químicos que se encontraram no lugar certo e na hora certa.
Mesmo sabendo que se a história do Universo fosse um dia de 24 horas, nossa existência se resumiria apenas aos últimos minutos antes da meia noite.
Nos negamos a acreditar que somos só um mal passageiro. Uma indigestão rápida das estrelas.
A gente se recusa a ser apenas uma ínfima, insignificante e passageira ocorrência no universo.
A gente quer ter relevância. A gente quer acreditar que pode mesmo destruir o planeta e que se isso acontecer será uma catástrofe sem precedentes.
Queremos acreditar que somos tão interessantes que extraterrestres viriam nos visitar. Abduziriam alguns de nós, para estudo.
Pobres de nós.
Neil deGrasse Tyson tem uma maravilhosa resposta para quando perguntam a ele se existe vida inteligente fora da terra.
Ele lembra que entre nós e os macacos existe uma diferença de apenas 1% em DNA. Ou seja, a diferença entre descascar bananas num galho e construir um probe que vai para Marte reside apenas nesse 1%, já pensou nisso?
Toda a vasta inteligência que nós julgamos ter a mais do que os macacos, os livros que já escrevemos, as descobertas, as óperas, as pinturas, a arquitetura, as conquistas de nossa inteligência, tudo isso mora neste 1% de DNA diferente entre nós e um chimpanzé.
Ou…
Meu deus…
Será que não somos tão inteligentes assim? - continua deGrasse.
Será que como vivemos nesse aquário, repletos de nós mesmos, olhando constantemente nossos próprios umbigos, será que não nos damos conta que não somos assim tão inteligentes?
Será que para um ser intergalático de inteligência muito superior que a nossa, construir o Empire State e descascar uma banana é praticamente a mesma coisa?
Afinal, o peixe é o último a reconhecer o aquário.
Será que para um extraterrestre, um que conseguiu viajar pelo Cosmos e nos encontrou, será que para ele somos praticamente o mesmo que um macaco?
Por exemplo, se ele for não 1% diferente da gente em DNA, mas 2%. Que dirá 5%. Seremos bactérias intelectuais para ele.
Tudo isso porque nessa semana minha timeline está repleta de referências a este mago da enganação Masaru Emoto e seus potes com arroz.
Se você não o conhece, sorte sua.
Se você conhece e acredita nas bobagens que ele vende, boa sorte.
A vida deve ser mais fácil para quem se contenta em descascar bananas.

Para Sua Segurança

Eu estou de saco cheio de tudo isso.
Estamos vivendo numa crise de segurança.
É segurança demais.
Isso não pode ser bom.
Estão acabando com nosso direito sagrado de conviver com o risco.
Eu entro no carro e o histérico começa a apitar desesperado como um poodle no cio para que eu ponha o cinto de segurança.
Eu não ponho de birra.
E a porra do apitinho não para.
Maldito apitinho.
Levei na concessionária e mandei desprogramar o apito.
- Não podemos desprogramar, senhor. É para sua segurança.
E o chato do call center da NET?
Aquele que usa frases como:
- Ola amiguinho, eu já localizei seu cadastro…- seguido de um tec tec tec de máquina de escrever antiga.
Então.
Ele grava a ligação, para minha segurança.
Meu deus, o que pode haver de tão arriscado numa ligação para pedir que um técnico venha arrumar minha TV?!
As senhas de oito dígitos contendo ao menos uma letra maiúscula e um número.
Para que? E se eu não quiser? E se eu quiser que minha senha seja 12345? Hein? Hein?
Não pode. Para minha segurança, não pode.
Para saber uma porra de uma receita de kibe de quinoa preciso de uma senha alfanumérica de seis dígitos. Que mundo é esse?
Crianças com capacete de bicicleta.
Me dá uma coisa no coração, juro.
Não tem coisa mais triste do que uma criança com aquele ridículo capacete de ciclista.
Criança que não cai de bicicleta e se arrebenta toda não é uma criança normal, gente.
Expor uma criança a tanta segurança não deve fazer bem. Deve causar alguma falha de caráter no futuro.
A gente precisa sinalizar para elas que não são tão importantes. Senão quando elas virarem estagiárias, vão achar que tem direito a ter opiniões.
Teve uma estagiária aqui que no segundo dia queria mudar todos os processos da agência.
Isso é capacete de ciclista demais na infância.
Faz um bem para seu filho. Tire o capacete de ciclista dele para que se sinta uma pessoa normal, como qualquer outra.
E aproveita e tira esse óculos de natação ridículo.
Cloro nos olhos faz bem para a miopia.
Eu passei por tudo isso e olha eu aqui.
Pior.
Meu pai tinha um fusca 69 quando eu era garoto.
Um fusca café com leite.
Quando a gente viajava, eu ia no banco de trás sem cinto.
Era gravidade zero.
Flutuava nas curvas, arrebentava a cabeça no teto e me estatelava no chão a cada buraco na estrada.
E eu me divertia com isso.
Inseguros, precisamos nos unir. Desobediência civil a toda essa segurança.
E para finalizar, tem mais uma coisa:
Motoboy de capacete rosa.
Me irrita.
Parem de usar capacete rosa cheio de adesivos.
Isso não tem nada a ver com segurança, mas eu precisava falar.
Para minha própria segurança.

O Estado da Nação

Se você gosta de bola de cristal, prepare-se porque vou contar abaixo o que - suspeito - vai estar nas capas dos principais jornais até as eleições.
A história começa com mais um petista do alto escalão abatido:
Caiu André Vargas, do PT do Paraná, vice-presidente da Câmara.
Vice-Presidente, percebe? Mais um gato gordo.
Vargas pediu licença de 90 dias do cargo de deputado e abre mão de um salário de 26 mil reais por 90 dias alegando problemas particulares.
Só que os problemas de André Vargas não são particulares.
Pelo contrário, são bem públicos.
André Vargas está afundado até o pescoço em diversas acusações de corrupção no Ministério da Saúde.
Sua ligação - amizade de mais de 30 anos, segundo suas palavras - com o doleiro Alberto Youssef não ajuda em sua defesa.
Youssef operou, segundo denúncias, como uma espécie de “banco” em operações de propina na Petrobras.
Aqui entra outro protagonista: Paulo Roberto Costa.
Costa era diretor de abastecimento da Petrobras, mantido no cargo com o apoio do PT, PMDB e PP. Mas o mais importante: com o aval do próprio Lula, que o chamava de “Paulinho”, tamanha a intimidade.
Pois bem. Paulinho foi preso pela Polícia Federal e despertou o terror entre os grandes empresários.
Afinal, segundo a Polícia Federal, Paulinho chefiava um intrincado esquema de corrupção e recebimento de propinas que vai desde a construção de refinarias até o recebimento de comissões para a compra de gasolina.
Se comprovado, o esquema coloca no rolo gigantes internacionais de petróleo, sem falar de grandes empreiteiras nacionais.
Mas e o André Vargas com isso?
André Vargas seria o braço político desse novo escândalo.
É bom a gente ir acostumando.
De agora até outubro, se eu não estiver enganado, vai aparecer uma denúncia atrás da outra.
Todo o silêncio da oposição durante os últimos meses parece, agora, justificado.
Estavam, provavelmente, organizando essa tempestade de denúncias que começa a garoar.
É o que nos resta.
Campanhas políticas com debates de ideias ainda estão distantes de nossa realidade.
Aqui se vota contra alguém. Não a favor.

Walter Clark

Quero falar sobre Walter Clark para depois falar sobre esses escândalos do PT.
Clark, para quem não sabe, foi o todo-poderoso da Globo antes do Boni.
Foi uma espécie de midas da rede Globo em seus primeiros anos.
Entre suas contribuições está o modelo breaks com comerciais de 30”.
Mas, mais que isso, foi o cara que definiu o papel Cultural da emissora, bem no meio da Ditadura.
Não pense em Clark como um pelego dos militares. Seu papel não era político.
E em seu tempo, a qualidade da Globo era inquestionável.
Estou falando de conteúdo e não de jornalismo.
Mesmo depois que saiu do Globo, Clark foi especial.
Na sua rápida passagem pelo cinema, produziu nada menos que Bye Bye Brasil.
Alias, uma vez num almoço onde Musa convidou o Fausto Silva, ouvi uma história não tão honrosa sobre a saída de Clark da Globo, mas isso fica para um post depois que eu morrer. Ou para o inbox.
O fato é que é inegável o valor de Walter Clark para aquele momento de nossa cultura.
Por que estou falando disso agora?
Porque no legado de Clark ficou uma lição: a televisão não deve dar ao povo o que o povo entende. A televisão deve obrigar o espectador a ir além. A se interessar. A pesquisar. A se informar.
Infelizmente, essa lição foi rapidamente esquecida na era Boni e a Globo colocou - como coloca até hoje - o sarrafo lá embaixo. Pense Zorra Total, que nem é cria do Boni, mas é herdeira.
E essa ética de dar ao povo “só o que o povo entende” contaminou não apenas a Globo, mas as Agências de Publicidade e os Clientes.
É nossa maior praga cultural.
Se transformou numa pandemia de burrice.
Em última análise, essa negação ao legado de Clark é o que transformou nossa televisão numa lata de lixo cultural.
O que isso tem a ver com política?
Tem a ver porque esta mesma ideia equivocada imposta pela geração do Boni, tenta nos convencer que “o povo não entende” os escândalos do PT. Que a compra de Pasadena é muito “complicada” para o povão entender. Que a queda de André Vargas não vai impactar aquela maioria de iletrados que define quem é o nosso próximo presidente.
Isso não é verdade. Walter Clark sabia disso. O brasileiro é uma esponja. Não é a toa que somos tão aderentes a redes sociais. Está no nosso DNA Cultural sugar informação quando nos é oferecida. Não é a toa que políticos querem manter a educação distante do povo.
Porque sabem que brasileiro com um mínimo de informação, muda a história.
Ou como diria Darcy Ribeiro:
“Somos o povo que viu e que vê. O povo que vigia e espera.”

Aqui para você, Terêncio.

Senta que lá vem história.

Terêncio você não deve ter conhecido porque nasceu lá por 185 antes de Cristo.
Foi um escravo de senador que se educou e virou um cronista de sua era. Uma espécie de Nelson Rodriguez do seu tempo.
Escreveu ao menos seis comédias e é o suposto autor da célebre frase:

Homo sum: nihil humani a me alienum puto

ou

"Sou homem: nada do que é humano me é estranho"

Não. Esse “puto” aí do final não tem nada a ver com o nosso “puto” atual. Machado de Assis, inclusive, quando citava a frase, cortava a última palavra para não criar embaraços.

A frase, filosoficamente, tem dois sentidos, amplamente discutidos:

O primeiro inspira compaixão: nós, humanos, somos todos parecidos de alguma forma. Dividimos os mesmos dilemas e sonhos, assim, devemos nos sensibilizar com tudo que acontece com nossa raça. Pausa para você assistir o Fala que Eu Te Escuto e comungar com o sofrimento alheio.

O segundo sentido é bem mais ardido e sarcástico, por isso mesmo, para mim é muito mais interessante: nós humanos sabemos que somos capazes das maiores atrocidades, dadas as condições. Nenhum de nós, humanos, está a salvo. Assista o Polícia 24 Horas e você vai entender o que estou dizendo.

Agora, vou dizer uma coisa para o senhores.

Sorte Terêncio não ter conhecido o Facebook. Porque se ele pudesse ver a quantidade de bizarrices que despejam na minha timeline todo dia, acho que a frase seria:

"Sou homem: nada do que esses estranhos postam me é humano."

Ravenna 3

Hoje completo três semanas de Ravenna.
Perdi quase nove quilos e me sinto ótimo.
Cheio de energia.
Logo de manhã vi o Hubble comendo a comidinha dele.
Tão bonitinho.
Quando cheguei perto ele rosnou tanto.
Estranho. Sempre foi tão calmo.
Vocês sabem quantas calorias tem aquela ração 3 carnes da Purina?
Enfim.
Depois disso, resolvi voltar para a cama.
Fico um pouco tonto quando fico em pé.
Ou quando respiro.
E também porque assim não preciso olhar para a geladeira.
Estou deitado olhando para o teto do quarto desde a hora do almoço.
O lustre do quarto de vocês também parece um Donut?
O meu parece, mas o sabor é bem diferente.
Desliguei o ar condicionado porque disseram que o calor diminui a fome.
Liguei o aquecedor.
Deve estar uns 45 graus aqui no quarto.
Estou suando muito.
Dizem que suar emagrece, então tudo bem.
As vezes, confesso, dou uma lambidinha de lado no suor.
É bom.
O sal levanta minha pressão e evita que eu desmaie.
Reduz as alucinações, também.
Ah…não contei para vocês das alucinações.
Começaram há poucos dias.
Mas já estão controladas, agora que estou lambendo suor e comendo pipoca doce.
Seu Airton, que é um vendedor de pipoca doce da época que eu estava no ginásio, veio morar aqui no quarto ao lado e faz para mim.
De hora em hora entra aqui no quarto com um carrinho de pipoca vermelho, cheio de luzinhas.
Disse que eu posso comer à vontade, porque é pipoca de quinoa com sucralose.
Estou muito melhor.
Tenho lido muito.
Livros de receita.
Eu descobri que se você olhar para uma foto de livro de receitas por mais de seis horas, você começa a sentir o cheiro daquele prato.
Cheiro mata a fome, sabiam?
Hoje cheirei um strogonoff com batata palha.
E um mousse bicolor de sobremesa.
Para o jantar já marquei a página do Cassoulet.
Bom gente, queria agradecer o apoio de vocês.
Seria impossível ter superado aquela fase difícil do regime sem a força que vocês deram.
Agora tenho que desligar, porque Seu Airton entrou aqui.
Disse que preparou uma surpresa para adoçar a minha tarde.
Aposto que é merengue. De aspartame.

Ravenna 2

Não aguentei.
Mandei um e-mail para a Nutricionista lá do Ravenna.

Segue a íntegra:

"Prezada ,
Estou escrevendo porque estou seguindo a risca tudo que você mandou.
Iogurte de manhã, quinoa no almoço, farelo de polenghi no lanche, sopa de água quente com quinoa frita no jantar e tudo mais.
Mas como eu só durmo de madrugada, bem tarde mesmo, sinto muita fome a noite…afinal são quase 6 horas sem comer.
O que posso fazer?”

Neste ponto pensei em perguntar se eu poderia comer um leitão pequeno, lá pelas duas da manhã.

Mas ela talvez achasse indigesto.

Mandei o e-mail as onze da noite, então fiquei dando reload sem parar enquanto a madrugada se aproximava.

Enquanto isso botei Marshmallow no Google Images e fiquei lambendo a tela do notebook, como venho fazendo todas as noites.

Lá pela uma e meia, a resposta chegou. Uma e meia. Imagino que ela deveria estar numa Pizzaria com os amigos.

Segue a íntegra da resposta:

"Ola,
Coma uma fruta.”

Como assim?

Acho que deve haver algum engano.

Afinal, todo mundo sabe que fruta é planta, não é comida.

Comida é coisa que foge da gente. Vaca, boi, pato, coelho. Ou coisas que só não fogem porque não têm pernas, tipo Negresco.

Respondi.

Segue a íntegra:

"Pode ser uma melância inteira? é fruta."

Estou esperando a resposta até agora.

Coloquei Cookies no Google Images.

Alguém sabe se caco de monitor mata?

Falha de Caráter

Eu tenho uma doença mental que nenhuma terapia diagnosticou.
Uma falha na minha personalidade, talvez, congênita.
A primeira vez que essa fraqueza de manifestou, foi numa tarde na década de 70.
Saí do cine Bristol, na Brigadeiro, depois de assistir The Warriors.
Naquela tarde eu tinha me transformado num dos Warriors.
Tenho certeza.
Minha personalidade tinha mudado.
Minha sorte foi não topar com nenhum skinhead.
Teria encarado com o ódio de um Ajax (James Remar).
E numa voz desafinada diria:
- Come out to play-eee.
Sorte.
Levaria um cacete homérico.
Durou uns dias até voltar a ser meu mísero eu.
O tempo passou e de lá para cá, fui um monte de outros personagens.
Sem que ninguém ficasse sabendo.
Só na minha cabeça.
Quando assisti Laranja Mecânica, procurei por um chapéu como o do Alex DeLarge (Malcon McDowell).
Ainda bem que não achei porque provavelmente ficaria mais parecido com o Oliver Hardy.
Falar em chapéu, anos mais tarde, experimentando um Panamá numa loja de Miami tive certeza de ser o Tom Jobin de A Casa do Tom.
Mas uma brasileira desavisada falou para uma amiga:
- E esse gringo ridículo? Tá se achando o Al Capone.
Devolvi o chapéu, humilhado e comprei um boné de motoboy.
Fight Club, como não?
Mas esse não permitem que eu conte.
É a regra.
Até hoje, ninguém me tira da cabeça que engordei por causa de Jake La Motta (De Niro) em Ranging Bull.
Só não consegui ficar preto e branco.
E Donnie Brasco? Hein?
Me fez usar um sobretudo velho em pleno verão de São Paulo.
Al Pacino, na verdade, fui vários.
Serpico?
Por que você acha que eu uso barba?
Porque sou hipster, ora por favor?
Até cego eu lamentei não ser, para poder dançar tango como Frank Slade, maldito Al Pacino.
É sério isso.
Eu viro esses personagens.
E não é só cinema americano, não.
Sua sorte é não ter trabalhado comigo quando eu fui Capitão Nascimento.
Durou semanas.
Tenho certeza que fui responsável pelo menos por duas demissões.
Ninguém leva tapa na cara impunemente no mundo corporativo.
Não entendem o valor da disciplina e pedem para sair.
Fracos!
E tem mais.
Experimenta me encontrar e perguntar se eu sou o Neto.
- Neto é o caralho, meu nome é Zé Pequeno, porra.
Sai automático.
Fui muito mais gente. Não cabe nesse post.
E ultimamente, essas séries, meu deus, pioraram tudo.
Já fui professor de química, já trabalhei na CIA milhares de vezes, CSI,
médico, assassino em série até vice-presidente americano eu já fui, recentemente.
Ultimamente, confesso, sou Rust Cohle.
Mas ando preocupado, porque não estou conseguindo sair do personagem.
Acontece sempre que pego um cigarro.
Matthew McConaughey baixa em mim.
O Cohle de atualmente, não o do passado.
Eu sei que não sou gato.
Não tenho rabo de cavalo, nem nada.
Mas cara, eu tiro o cigarro do maço igualzinho ao Rust.
E ando falando com um certo sotaque de Ribeirão Preto, que versão brasileira do Texas.
Eu tenho tentado, mas não consigo me libertar.
Hoje, em total desespero, olhei no espelho,
com a firme intenção de voltar a ser eu mesmo.
E uma voz cochichou na minha consciência:
- Are you talking to me? Are…you…talking… to me?!

Forever 21 1

Estou com minhas filhas na porta da Forever 21.

Se você não sabe, Forever 21 é o lugar onde toda a adolescente quer estar hoje.

Aqui tem mais virgens do que num paraíso de terrorista muçulmano.

Só que aqui o paraíso é outro. É o das roupas baratas. E chegaram com tudo no Brasil. A fila começa na porta da loja do Shopping Morumbi e vai até, sei lá, Juazeiro.

Os seguranças tentam conter as mais descontroladas que, de dentro da loja, berram para quem está do lado de fora:

- Camisetas por R$ 8,00!!!

Duas meninas ao meu lado desmaiam.

Os seguranças informam a quem está na fila:

- Não é liquidação! Não é liquidação. Os preços serão sempre esses (destacam o “sempre”).

As meninas querem entrar. Eu me pergunto se está certo transmitir valores de consumismo tão exagerados. Mas não consigo ouvir minha própria resposta, porque o som está muito alto.

As músicas são histéricas e a loja é um amontoado de araras com roupas genéricas.

Olhando de fora, parece uma daquelas casas de espelho de parques de diversão, onde a gente vê as pessoas esbarrando umas nas outras procurando a saída sem direção.

Quinze para as dez, os seguranças fecham a fila. Chega por hoje, diz um deles, achando que será fácil assim. Ainda estamos fora da loja.

A comoção é geral. Conflito. Alguém grita “e a liberdade de ir e vir?!”.

As jovens imploram para entrar na fila, como se estivessem atrasados para o Enem. Pior. Enem tem todo ano. Mas camisetas a R$8,00, vai saber.

Espero acalmar um pouco o tumulto. Explico para o segurança que estou em estado terminal de uma doença e que meu sonho é morrer dentro daquela loja, cercado pelas minhas filhas.

Ele abre uma exceção. Pergunta se eu também vou entrar. Eu digo que sim mas prometo manter os olhos fechados e apenas pagar o que as meninas comprarem, sem reclamar.

Dentro da loja encosto numa parede para escrever este texto. Não tem onde sentar. Ninguém vem aqui para sentar. Estão todos em transe, olhando as araras, apalpando produtos.

Todas, sem exceção usam aparelhos de dente.

Vestem roupas iguais às que estão nas araras. Chego a pensar que seria mais prático e barato se trocassem as roupas entre si.

Enquanto as meninas escolhem o que pretendem levar, me junto aos pais deprimidos que compõem a fila para pagar. Converso com algumas pessoas sentadas no chão. São do interior. Vieram para São Paulo só para vir aqui. Amanhã virão de novo. Sugiro que da próxima vez tragam uma barraquinha e acampem na loja.

- Mas será que pode?

A fila para pagar é enorme. Da a volta pelas araras, como uma dessas serpentes de carnaval chinês, cheia de gente segurando trapos coloridos. A música. Os gritos. As cores. A multidão. Temo um AVC.

Uma menina sai da fila e vai até o segurança.

- Posso sair para pegar alguma coisa para comer?
- Se sair, não pode voltar.
- Mas, moço, eu estou aqui desde as 3 da tarde. - implora.
- Se sair não entra.

Ela volta para a fila, obediente.

Uma hora depois de escrever esta última frase, ainda estou na fila. Nunca mais sairei daqui.

Finalmente compreendo porque a loja se chama “Forever”. 21 deve ser uma gíria para “fila”.

Forever 21 2

Curioso.
O post sobre a Forever 21 acordou alguns moralistas-de-timeline.
Gente que acha que eu prestei um desserviço às minhas filhas ao conceder que entrassem nesse templo consumista.
Divertido isso.
Gente que vive na ilusão de que - nos dias de hoje - educação ainda se faz por imposição ou exemplo.
Gente que luta pelos direitos de qualquer minoria que se apresente, mas dentro de casa, com seus (futuros?) filhos, será fascista como jamais admitiria em público.
Eu também era cheio de certezas antes delas nascerem.
Luli e eu conseguimos algumas conquistas.
As meninas tiveram uma infância Xuxaless e SBTless!
Na verdade, raramente veem TV aberta.
Todas desenham, todas pintam, todas tocam instrumentos e escrevem. Leem provavelmente mais do que a grande maioria dos meus amigos.
Manu, a mais velha, seguramente lê mais do que eu.
São crianças destes tempos.
Conscientes das crises que vivemos.
Chatas.
Não me deixam fumar em paz.
Fecham a torneira quando escovo os dentes.
São crianças felizes, apesar de urbanas.
Nunca demos a elas brinquedos de madeira.
Achávamos um excesso, coitadas.
Elas têm celular, têm computador.
Usam a tecnologia disponível.
Como fizemos em nosso tempo.
Ou seu pai proibia você de usar o telefone fixo?
Minhas filhas são felizes à maneira de hoje, num mundo que as cobra constantemente.
Cobra informação, cobra novidades, cobra quem você é, como você cheira, como você se veste, como você pensa.
E nós ensinamos a elas como serem críticas e responderem a todas essas demandas. Com competência e realismo.
Sem utopias.
Se você acha realmente que será capaz de controlar todos os comportamentos de seus filhos por imposição, começou bem errado.
Se você imagina que vai ser capaz de faze-las odiar o funk ostentação apenas fazendo-as ouvir Miles Davis, começou bem errado.
Se você acha que vai conseguir transmitir seus valores tal e qual você espera, apenas mostrando o que é correto, prepare-se para uma enorme decepção.
Eu aprendi isso com elas.
Para que aprendam meus valores, eu terei que me encontrar com elas no meio do caminho.
Vivemos num tempo onde o simples educar dando exemplo não é mais, infelizmente, suficiente.
Nossos filhos precisam de nós cada vez mais, mas estão - paradoxalmente - cada vez menos dependentes de nós.
Se informam como quiserem. Se conectam com quem quiserem.
Acredito que nos dias de hoje só é possível educar participando junto com elas do pior e do melhor.
Bota o funk pra tocar no carro. Ache junto o que há de bom e de ruim.
Por isso vivo com minhas filhas o que o mundo nos apresenta.
Se a Forever 21 está na boca de todas as amigas, vamos lá. Vamos saber do que se trata. Vamos comprar uma camiseta de 8 reais e quem sabe, falar de trabalho escravo. Vamos postar no instagram. Vamos rir juntos, vamos ter raiva da fila e vamos entender o que é e o que não é bacana.
É isso.

Ravenna 1

Hoje completo duas semanas de Ravenna.

Perdi 6 kg.

É super fácil. Não sinto fome.

Ou melhor, a fome passou a ser uma constante, então me acostumei com ela. Sinto fome até quando estou comendo. Sinto fome no banho, sinto fome dormindo, sinto fome dirigindo.

Sinto tanta fome que a pasta de dentes é um snack. Considero escovar os dentes a refeição mais satisfatória do dia.

Não sei porque estou reclamando. A nutricionista disse que eu posso comer de tudo. Ou melhor, tudo que possa ser substituído por quinoa. Rizoto de quinoa. Mousse de quinoa. Kibe de quinoa. Frango de quinoa. Quinoa é a nova soja.

Quinoa eu posso comer. Tenho a sensação nesses 14 dias que eu comi, sei lá, um Vietnan inteiro de Quinoa.

Para aliviar a fome, eles sugerem que você beba um líquido quente antes da refeição.

Posso garantir que funciona. Mas o líquido tem que estar bem quente. Fusão nuclear quente. Tem que ser quente o suficiente para derreter seu sistema digestivo e acabar de uma vez por todas com necessidade de comer. Senão não funciona. Tomei uma sopa de tomate tão quente que soldou minha língua no céu da boca. Não sinto mais gosto de nada.

Mas não faz mal, porque quinoa não prima exatamente pelo sabor.

Açúcar e chocolate nem pensar.

Mas isso não me faz falta. Já passei do ponto de querer comer açúcar e chocolate. Comer eu não quero mais. Eu quero esfregar chocolate no corpo. Quero me enterrar numa praia de açúcar. Quero entrar num Amor aos Pedaços e esfregar a cara numa torta mousse de chocolate. Quero deitar de boca aberta embaixo daquelas cachoeiras de chocolate que tem em resort cafona, manja?

Seis quilos.

Para você que é magro, seis quilos pode ser bastante.

Para mim, não é nada. Ninguém nem nota. Seis quilos eu reponho numa ida ao Fogo de Chão. Só em cupim.

Mas eu vou insistir. Vou insistir porque esse ano eu faço 50 e quero estar saudável. Magro eu não digo. Só saudável. Com olheiras. Triste. Mas pesando dois dígitos, quem sabe.

Estão todos, desde já, convidados para a festa em outubro.

Não vai ter bolo, mas vai ter brigadeiros. De quinoa.

Minha Mãe e sua Técnica de Negociação 2

- Mãe, o cara da moto ligou.
- Sei.
- Fez uma proposta para a moto.
- Ahran.
- Disse que se a gente não vender até dia 15, ele compra por 16 mil.

Silêncio.

- Mãe?
- Que?
- Que foi?
- Nada.
- Eu sei. Você está rindo de mim por dentro, né?
- É.
- Você está pensando “eu sabia”, né?
- É.
- Mas você não falar nada, né?
- Não.
- Então tá. Um beijo.
- Outro, meu filho.

Mesmo depois de desligar ainda deu para ouvi-la gargalhando.

Ela.

Eu a conheci em 2005.
Ela se apaixonou por mim imediatamente.
Se mudou para casa sem que eu convidasse.
De lá para cá, vivemos juntos.
Ela é ciumenta.
Não me deixa em paz.
Onde eu vou, vai atrás.
Tudo que me interessa, ela questiona.
Se gasto dinheiro, é porque vou ficar na miséria.
Se economizo, sou muquirana.
Se o dia está lindo, prefere chuva.
Se chove, sente falta de sol.
Quando me visto, ela sempre tem um comentário negativo.
Diz que eu estou gordo.
Diz que a roupa me caiu mal.
Quando vamos almoçar, ela não gosta de comida nenhuma.
Não importa o restaurante.
Bebida? Coca faz mal, água não tem sabor.
Álcool não gosta.
Até quando venho trabalhar ela vem me visitar.
Se ganhamos uma concorrência, ela é a primeira a dizer que não vai dar certo.
Em casa, assistindo o Jornal Nacional, é um perigo.
Tudo com ela é triste e arrastado.
Vou para a cama, todos os dias, cansado de ouvi-la falar.
Mas não consigo dormir.
Ela não se cala.
Diz como o dia foi péssimo.
Me conta o lado ruim de tudo que aconteceu.
E promete que amanhã vai ser pior.
Só tem uma coisa que faz ela me deixar em paz.
Minhas filhas.
Quando as vê, ela se cala e fica ali, no canto.
Fica em silêncio até elas irem embora.
Mas é só fecharem a porta e ela volta.
Diz que sou um péssimo pai.
Diz que não sou presente.
Diz que sou egoísta e cruel.
Tenho vergonha dela.
Quando conto, dizem que é impossível que ela seja assim.
Já fiz de tudo para ela me abandonar, mas não adianta.
Somos um casal difícil de lidar, reconheço.
Assim, as amizades foram ficando escassas.
Tem gente que não suporta mais que eu fale dela.
Só ela não vai embora.

O velho Mentor.

Meu nome é Mentor Muniz Neto.
Na verdade, Mentor Furquim Muniz Neto.
Tenho esse nome esquisito, como os mais espertos devem intuir, porque é o mesmo nome do meu pai, Mentor Furquim Muniz Jr. e de meu avô, Mentor Furquim Muniz.
Meu avô já morreu.
Não lembro bem o ano.
Meu pai deve saber.
Essas coisas de datas nunca foram muito importantes na nossa família.
Meu avô, sempre foi um sujeito de espirito aventureiro, diferente do neto que apodrece aqui diante dessa tela de led.
(A bem da justiça, ele sempre gostou de tecnologia. Suspeito que hoje estaria aqui, com um monitor de 30”, fascinado.)
Em 1922 emigrou para Nova Iorque, the land of opportunities.
Atracou em New Jersey em 19 de abril de 1922.
Sei disso porque está lá, no Museu da Imigração de Ellis Island, o manifesto do navio Satarém, quando chegou ao porto americano.
O jovem Mentor Muniz chegou com 90 dólares na carteira, pretendendo ficar 2 anos.
Ficou 11 anos.
Voltou para a Revolução de 32, para defender São Paulo.
Mas fez dinheiro nos Estados Unidos.
Vivia uma vida confortável no Brasil.
Casou e teve dois filhos.
Morava numa enorme casa no Brooklyn.
Casa com cavalos, imagine, no Brooklyn.
Gostava de andar a cavalo.
Mas decidiu que precisava de um esporte que unisse a família.
Escolheu velejar.
Seu veleiro mais conhecido foi o Sagres V, um Classe Brasil, o BL 12 que hoje ainda está na ativa em Florianópolis, com o nome Cayru II.
O Sagres era um barco inteiro de madeira, 40 pés, elegantíssimo.
Agora, velejar com o velho Muniz não era nada elegante.
No barco, o velho Mentor era grosseiro, brigão e mandão, sempre no comando.
Lembro de dormir no barco, em infindáveis finais de semana, quando era pequeno.
Minha cama ficava ao lado do motor.
A bombordo a água batendo no casco.
A estibordo, o cheiro de óleo do motor.
Lembro de acordar no domingo e ir pescar bagres nojentos na proa do Sagres, enquanto meu avô arrumava alguma coisa na cabine.
Lembro do cheiro de mar, misturado com umidade.
O Sagres V foi um veleiro vencedor.
Conquistou uma meia dúzia de Regatas Santos-Rio e duas Buenos Aires-Rio entre uma infinidade de outras.
O tempo passou e com a personalidade autoritária do meu avô, a vela acabou afastando a família ao invés de uni-la.
A tripulação do Sagres não era mais da família.
Era de amigos.
Íntimos como só o mar é capaz de unir. Nisso ele tinha razão.
Com o tempo a manutenção da velhice ficou ainda mais cara que a manutenção do barco.
Cada um de nós foi para um lado e o veleiro, vendido.
No plano Collor, meu avô já com 80 anos passados, me ligou na JWT para saber se a agência o contrataria como tradutor.
Maldita Zélia. Malditos políticos.
Acho que foi ali que ele começou a morrer.
Até uns anos atrás, o Yatch Club de Santos tinha uma Regata em homenagem ao velho Comandante Muniz.
Não devem ter mais.
Ninguém perde tempo para homenagear quem morreu.
Mas o mar, por causa do meu avô, sempre esteve de alguma forma perto da gente.
Todos nós velejamos ou fizemos algum esporte na água, durante toda a vida.
Meu pai, meu tio, meus primos e eu.
Cada um a sua maneira.
Meu tio se tornou Fuzileiro Naval e durante anos foi o responsável pelos veleiros da Escola Naval, tendo os futuros Fuzileiros como tripulantes nas Regatas mais incríveis do Brasil.
Meu pai teve um Day Sailer até outro dia. Hoje, por causa de um glaucoma, não veleja mais.
Meu primo surfa pelo mundo, cada hora num canto, o danado.
E quando vejo a Manuela, minha filha, a quarta geração, começando a fazer wakeboard, me ocorre que o velho tinha razão.
Um esporte que unisse a família.
Por que escrevo isso?
Porque ontem esta rede social trouxe uma grata surpresa.
O Luis Felipe Calmon, que não conheço, me mandou uma mensagem.
Luis é filho do Calmon, que foi timoneiro do Sagres V, na década de 70.
Lembro tão bem das reuniões na casa do meu avô, antes das regatas, onde ele, Calmon e os tripulantes combinavam as estratégias.
O nome Calmon, o Luis nem sabe, despertou um monte de lembranças.
O cheiro da casa dos meus avós.
A luz na casa nos dias em que essas reuniões aconteciam.
A chegada no Rio de Janeiro, onde ficávamos da varanda do apartamento da minha tia, no Leme, de binóculos em punho tentando adivinhar que posição o Sagres entraria na Bahia de Guanabara.
Valeu pela lembrança Luis.
Pensei em perguntar como você me achou.
Mas, poxa.
Mentor Muniz Neto.

Carregando... No More Posts Carregar mais posts