4 Oct

Sobre o humor e o bom gosto.

Senta que lá vem história.

Todo mundo tem uma opinião sobre o Rafinhagate.

Tem os que acham um absurdo, censura, falam até do AI5. Tem os que acham muito certo, moralistas de plantão.

Então eu queria contar uma história.

Porque não acho que o assunto seja a graça ou não de uma piada.

A receita de apresentadores-comediantes TV aberta não é nova.

Bob Hope deu o tom do host de talk show com talento para o humor. Foi seguido por uma geração inteira de comediantes, menos ou mais engraçados.

De David Letterman a Conan O’Brien, de Jay Leno a Jô Soares, a receita funciona.

Todos, independente da graça, têm talento específico para falar com uma audiência massiva.

Conseguem ser quase genéricos. Falam com as diferentes classes sociais, religiões, raças.Não são polêmicos.

Você criticando ou não, são talentosos e ganham fortunas exatamente porque conseguem fazer rir, entreter, sem ofender, por anos a fio.

O próximo passo talvez tenha sido dado por Seinfeld. Na época, a NBC produzia o Saturday Night Live toda semana. Um programa nada correto, mas que tinha sua audiência cativa, que sabia o que esperar no final das noites de sábado.Uma agenda sufocante, que - apesar de ter criado um número inigualável de comediantes - deixava a equipe exausta. Lorne Michaels, o até hoje todo poderoso do SNL, pediu um final de semana “off” por mês. A emissora aceitou e alguém deu a idéia incrível de pegar um comediante Stand Up em ascensão para ocupar o final de semana vago.

Seinfeld não tinha nenhuma experiência em TV. Sabia que era um jogo completamente diferente dos clubes de stand up. Chamou seu amigo Larry David para ajudá-lo. Juntos e assumidamente morrendo de medo do desafio, criaram o histórico “show sobre o nada”.

Qualquer stand up sabe que fazer uma piada nazista, racista, de mau gosto, pode até funcionar num clube, para uma audiência restrita, por sua conta e risco.

Mas qualquer stand up também deveria saber que falar com uma platéia de milhões, às custas de marcas que o patrocinam, estabelece um novo compromisso.

Ao entrar em rede nacional surge outra ética, tudo ganha uma gigantesca dimensão e é de uma ingenuidade sem tamanho acreditar que tudo que se dirá vai passar ileso.

Dizer “sou comediante, faço rir com o improviso” é um direito de cada um.

E definir a linha de corte do bom gosto é um direito de quem dirige a emissora.

Isso não tem nada a ver com censura.

Tem a ver com bom senso. Tem a ver com o medo de perder audiência e anunciantes.

Enquanto a emissora não assumir que está disposta a apostar no gosto duvidoso para provar um ponto sobre a liberdade de expressão, o bom senso pede que você pense duas vezes antes de falar.

Isso não significa que não haverá avanço no envelope da liberdade de expressão. Isso significa apenas que este avanço se dará de comum acordo entre os todos os envolvidos.

Honestamente, foi morte anunciada. Anunciada por quem colou Rafinha e Danilo Gentili no megafone da mídia e assumiu o risco.

E quem assumiu o risco tem todo direito de voltar atrás. Simples assim.

Foi para escapar desta ratoeira que Seinfeld optou por um “show sobre nada”. 

Porque assim, descompromissado, podia escapar do policiamento do politicamente correto.

Já Rafinha, optou pelo “digo o que bem entendo”. 

Resultado: não fala mais, ao menos no horário nobre.

De gênio a ingênuo, em apenas uma frase.

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Notes

  1. naocontepramamae posted this