Vício de uns, virtude de outros.
Essa semana o Clício, consagrado fotógrafo e velho amigo, fez um post falando sobre o Instagram. O texto, curto e cheio de exemplos, é quase um desabafo de quem quer estimular o uso de uma ferramenta que faz, de um jeito único, aquilo que ele gosta tanto, a ponto de se tornar sua profissão.
Não sou fotógrafo e o Clício não me deu nenhuma procuração.
Alias, não quero falar especificamente do Instagram porque acredito que o assunto seja até mais amplo do que apenas esse Aplicativo.
Tem a ver com o que a gente entendia como formação num ofício no passado e como será obrigado a entender daqui para frente.
Mas já que estamos no Instagram, vamos usá-lo como exemplo: você gosta de fotografar. Estuda, aprende, investe, compra equipamentos, monta um estúdio, constrói uma reputação. Essa reputação, como todas, precisa ser alimentada todos os dias. Na maioria das carreiras, tudo isso, o prestígio, a técnica, os compromissos, acabam ocupando mais tempo até do que aquela sua motivação inicial.
Então, de uma hora para outra, aparece um aplicativo que mora no telefone. Cabe no bolso. Está constantemente com você e - quase como um milagre - devolve aquele prazer original. O prazer de olhar e capturar. Olhar e eternizar. Mas não só isso. Instagram olha, captura, eterniza e compartilha, em segundos.
E volta para o bolso.
E segue a vida.
Simples como era o sonho de ser fotógrafo, que - evidentemente - incluia essa etapa final de mostrar para todo mundo como é que se ve o mundo através de seus olhos.
Essa lógica tem, eu sei, um problema.
O mesmo problema que tinham os filtros de Photoshop para mim, quando surgiram.
Sou Diretor de Arte muito antes dos computadores e como o Clício, sempre fui rato de aplicativo (desculpe o “rato”, :) Clício).
Para ser Diretor de Arte, quando comecei, sujeito tinha que ter algum talento. Precisava, no mínimo, aprender a técnica. Desenhar, rabiscar, ter alguma afinidade com a arte gráfica ao menos.
Aí vieram aqueles malditos filtros de Photoshop (ou o nefasto dropshadow). Filtro de Photoshop é tudo que um diretor de arte da minha geração despreza.
Ser diretor de arte passa…ou passava…por não aceitar que um filtro definisse nossa concepção do que é a imagem adequada.
É receita fácil demais. É dar poder demais ao randômico. É deixar a decisão à cargo da ferramenta.
Esse poder da ferramenta dos antigos filtros de Photoshop, digna de desprezo para alguns puristas, está lá no Instagram e seu “prefabricadismo” ou mesmo nos 140 caracteres do Twitter para aqueles cujo ofício é escrever.
Blogs tiveram também esse efeito sobre os jornalistas.
A síndrome do “Como-Assim?”: passei minha vida inteira aprendendo a fazer o que eu amo, tive que me enquadrar em tantas limiações de processos, técnicas, de linguagem e agora com o Twitter, Instagram e Wordpress qualquer macaco faz o que eu faço?
Não.
Não faz.
As fotos do Clício no Instagram falam por si. Usam os recursos e limitações da ferramenta, mas evidentemente mostram o que há do outro lado da câmera, digo, telefone: os olhos de um fotógrafo.
É o mesmo que o Contardo Caligaris twitando, torcendo a limitação à seu favor, como um exercício de síntese.
Ou o blog do Novaes, pautando os veículos.
Não acho que nenhum aplicativo tem (ainda) o poder de substituir o prazer de criar para quem escreve, fotografa, ilustra, compõe etc.
O prazer de sentar no piano. De batucar um teclado. De trocar de lentes.
Não acho (ainda) que se pode viver só de Twitter e Instagram.
Mas e por isso não utilizá-los nunca?
Se é vício ou virtude, só o dono do telefone tem o direito de dizer, mas para quem é follower o ”compartilhar” do Instagram, Twitter, Blogs são um presente porque, por alguns segundos, humanizam gente que a gente nunca teria condição de ter ao alcance de um enter.
P.S. E só para esclarecer: uso o Instagram, para mim como um brinquedo, mas continuo fotografando com minha camera “de verdade”, da mesma maneira que twito, tenho meu blog mas não deixei de entupir meus arquivos .doc com muito mais de 140 letrinhas.