Baseado numa história real.
Anos setenta, colégio particular em São Paulo.
Na quadra, o professor de Educação Física fala para uma classe de adolescentes.
Está em pé, vestindo um impecável uniforme Adidas, cercado de jovens sentados a sua volta. Cabelos longos, desses que hoje só caberiam num argentino.
- A gente não foi feito pra correr - diz o professor, contundente.
- Na Natureza, nenhum animal corre sem uma razão, sem um motivo - continuou. Por exemplo, correm para caçar, ou para fugir. Mas só o homem corre apenas por prazer. Apenas para marcar o tempo. Apenas para se superar.
Pausa. Pensa.
- Ridiculo isso.
Outra pausa balançando a cabeça afirmativamente.
- Também não fomos feitos para comer carne. - e fez a mão esquerda mascar.
- É só ver nossos dentes caninos, ou nosso sistema digestivo. Comer carne crua, para nós, é um esforço. Nos, humanos, só começamos a comer carne depois que descobrimos o fogo. Sabiam?
Ninguém respondeu. Deveria ser a fala mansa do professor que fazia com que, aos poucos, os jovens desviassem a atenção. Começavam a conversar entre si. A perder o foco.
Era sempre assim.
Mesmo o fato de um professor de Educação Física insistir num discurso que parecia querer provar que o esporte não era saudável, mantinha as crianças atentas.
Foi preso naquele mesmo dia, quando entrava em seu Puma entupido de maconha, no estacionamento da escola.
A maconha ele vendeu durante anos para seus alunos, por um preço até razoável.