30 Apr

Baseado numa história real.

Anos setenta, colégio particular em São Paulo.
Na quadra, o professor de Educação Física fala para uma classe de adolescentes.

Está em pé, vestindo um impecável uniforme Adidas, cercado de jovens sentados a sua volta. Cabelos longos, desses que hoje só caberiam num argentino.

- A gente não foi feito pra correr - diz o professor, contundente.

- Na Natureza, nenhum animal corre sem uma razão, sem um motivo - continuou. Por exemplo, correm para caçar, ou para fugir. Mas só o homem corre apenas por prazer. Apenas para marcar o tempo. Apenas para se superar.
Pausa. Pensa.

- Ridiculo isso.

Outra pausa balançando a cabeça afirmativamente.

- Também não fomos feitos para comer carne. - e fez a mão esquerda mascar.

- É só ver nossos dentes caninos, ou nosso sistema digestivo. Comer carne crua, para nós, é um esforço. Nos, humanos, só começamos a comer carne depois que descobrimos o fogo. Sabiam?

Ninguém respondeu. Deveria ser a fala mansa do professor que fazia com que, aos poucos, os jovens desviassem a atenção. Começavam a conversar entre si. A perder o foco.

Era sempre assim.

Mesmo o fato de um professor de Educação Física insistir num discurso que parecia querer provar que o esporte não era saudável, mantinha as crianças atentas.

Foi preso naquele mesmo dia, quando entrava em seu Puma entupido de maconha, no estacionamento da escola.
A maconha ele vendeu durante anos para seus alunos, por um preço até razoável.

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