sobre o brasileiro burro.
Já contei essa história.
Mas vou contar de novo.
Em resumo, é a história de como surgiu a Jovem Guarda, lá de Roberto e Erasmo.
Conta a lenda que lá pelos anos 60, o comunista e publicitário (paradoxo que na época ainda passava batido) Carlito Maia, num papo de bar sobre o futuro do Brasil do Governo Militar, disse que o Brasil precisava mesmo era de um Rei.
Essa era uma ideia recorrente no Brasil daquela época (tava lá Rei Pelé, que não me deixa mentir).
Só que dita por Carlito, no lugar certo, na hora certa, virou um movimento musical e o Rei Roberto Carlos foi criado.
Para coroar a brincadeira, Carlito, para dar nome ao movimento, tomou emprestada a frase de Lenin “ “O futuro do socialismo repousa nos ombros da jovem guarda”.
A referiencia escapou pela censura e a Jovem Guarda pegou.
Nessa mesma época, o Governo Militar ensinou muita coisa pra gente.
Muita coisa errada.
Uma delas é a falácia de que o brasileiro é burro.
Para justificar o fato de que ninguém podia votar, enfiaram na cabeça de mais de uma geração, essa bobagem de que o brasileiro é tacanho, não entende ideias mais complexas.
Essa geração, tem hoje a minha idade.
Beira ou passou dos cinquenta.
Muitos deles, tem posição de destaque em suas vidas profissionais.
E continuam, mesmo sem perceber, divulgando essa versão, ensinada de um jeito subliminar nas aulas de Educação Moral e Cívica da década de 70.
Isso faz muito mal para o Brasil.
Valida atitudes assistencialistas de governos populistas.
Justifica manter boa parte de nossa população produtiva, limitada ao tipo de informação que imaginamos que sejam capazes de compreender.
Restringe as possibilidades infinitas de um povo tão criativo.
E, na Publicidade, impõe uma obrigação de ser simplista, que está em absoluto desacordo com o que é feito mundo à fora.
Com a desculpa de que “o povão não vai entender”, criamos uma barreira invisível entre a Nova Era da Comunicação e o nosso povo - que teimosamente - nos prova diariamente seu interesse (e competência) por consumir informação.
Talvez não sejamos mesmo um povo culto.
Talvez não sejamos mesmo um povo erudito.
Talvez não sejamos um povo dado a bater panelas e a exigir o que quer.
Mas o povão entende bem mais do que nos ensinaram.
Prova disso é aderência que temos em telefonia celular, redes sociais e tudo que é novo e pode ser acessado sem interferência do Estado ou dos tycoons da mídia de massa.
Esse povo supostamente burro, tem mais de um celular por habitante. Tomou posse do Orkut. Criou o gato da TV à cabo e as Lan Houses nas favelas.
Essa discussão não é nova.
Walter Clark, na Globo, brigou durante anos pela ideia de que a TV deveria subir a barra do que era oferecido. Ao invés de dar ao povo tudo mastigado, provoque, instigue e o povo vai responder.
Infelizmente, seu time perdeu a briga para outro.
Deu no que deu.
O humor virou o de bordões.
A dramaturgia virou a das novelas.
O resultado só corroborou a ideia de que o brasileiro é um povo burro.
E a TV virou essa porcaria que é hoje, obrigando a publicidade a ser, também, rasteira.
Mais fácil limitar por baixo.
Pensei em tudo isso ao ler, mais uma vez, o argumento de que a gente não faz boa propaganda porque o brasileiro não entenderia.
Incrível como 30 anos depois, ainda não superamos essa ladainha.
Até quando vamos todos ser coniventes com essa inverdade?
Eu digo até quando.
Até quando essa geração que lidera nossos negócios, tiver voz ativa.
Esse quadro só mudará quando (e se) uma nova geração assumir as decisões e definir uma nova altura para a barra.
Que ironia.
Nosso futuro nos ombros da jovem guarda.
De novo.